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Nem tudo precisa de ser monótono…
Por: Derry Cool-Radmore (Bath, Reino Unido)
O Francês que se aprendia nas escolas era ensinado por nativos Franceses; reforçado pelo contacto com as unidades navais Francesas estacionadas em Portsmouth, isso dava-nos uma familiaridade com a língua, tal e qual como ela era utilizada no quotidiano, e que eu frequentemente senti falta quando estava a recrutar uns anos mais tarde, naqueles que se apresentavam com uma licenciatura britânica em línguas modernas (parece que ter, como eu tive, lições em Literatura Francesa e participar em debates exclusivamente nessa língua é bastante incomum). Eu notei repetidas vezes, que aqueles que até eram capazes de lidar admiravelmente com conteúdos técnicos, cometiam erros crassos quando confrontados com certas e determinadas frases, relativamente comuns no textos originais.
Um segundo e realmente imprevisto período de aprendizagem linguística veio quando, após dois anos de Escola de Arte, eu fui chamado para a Royal Air Force, ensinei rádio e radar, e fui enviado para invadir a Áustria e Berlim pelo ar: demorei um longo tempo a perder o sotaque bucólico de Steiermark mas ocasionalmente ele ainda se manifesta de forma subtil.
Nesta fase, eu nem sequer sabia que a tradução existia como forma de ganhar a vida – utilizava as línguas estrangeiras apenas para conhecer e conviver com as pessoas. Portanto, a desmobilização levou-me a tirar uma licenciatura em línguas na Universidade, as longas férias eram passadas como fotógrafo de praia, e os Sábados de Inverno, a vender películas do Ex-departamento de Guerra e câmaras baratas sob comissão, às lojas de fotografia locais.
Depois da formação, e alguns meses a vender e a instalar aqueles que eram na altura, os modernos Televisores, eu geri um daqueles negócios de fotografia, e mais tarde tornei-me um fotógrafo freelancer fazendo (porque a minha primeira esposa era uma radiologista que me ensinou anatomia e os fundamentos da medicina) uma razoável quantidade de fotografia médica. A minha família encarou tudo isto como um sendo um enorme desperdício da minha licenciatura, e todos ficaram aliviados quando por acaso, eu encontrei um anúncio de emprego no “Daily Telegraph” que me levou ao departamento de tradução da Philips NV em Eindhoven, na Holanda, e consegui um emprego “a sério”!
Tudo isto é uma forma longa e complexa de dizer quão valiosos esses anos “desperdiçados” a fazer isto e aquilo, provaram ser. A minha experiência de mecânica de rádio, em conjunto com o curso superior em Francês e Alemão, abriram-me as portas da Philips; e uma vez lá, eu encontrei um nicho no processamento de toda a literatura de vendas da divisão de equipamento médico. De regresso a Inglaterra, um pouco depois do meu serviço na Royal Air Force e depois do trabalho na Holanda, a minha experiência efectiva em juntar palavras para publicação, trouxe-me um posto como autor técnico sobre instrumentos de aviação; uma vez ali (juntamente com as noções de tipografia que estudei na escola de belas artes), eu aprendi como dispor e marcar os textos e a coordená-los com o impressor. Sempre me intrigou o pouco que os tradutores – cuja porção considerável de trabalho se destina a livros, brochuras e manuais – parecem saber, ou querem saber, acerca do funcionamento do mundo da impressão; e embora o advento dos computadores e do Desktop Publishing possa ter mudado isto, o uso de fontes não é de facto algo para os insensíveis, e com pouca experiência. No entanto, um conhecimento básico pode trazer dividendos: Eu descobri uns anos mais tarde, enquanto concorria para um contrato de tradução de um manual de navegação à vela (outra actividade de lazer que se tornou útil), que aquilo que determinou a escolha da Editora foi que eu havia indicado que a tradução de Alemão para Inglês aumenta o número de letras, e como haviam centenas de blocos de texto, surgiam problemas de edição de texto, e eu havia sugerido uma mudança no tipo de letra e no espaçamento; o meu editor comentou que eles nunca anteriormente haviam tido um tradutor que falasse a linguagem dos tipógrafos. Isso fez-me sobressair no meio dos outros.
No entanto, foi só quando eu me alistei como tradutor no Central Office of Information da administração pública, que eu comecei a aprender o que era realmente uma especialização no uso das palavras, e progredi através dos estágios revistos, e depois a trabalhar sem revisão, e finalmente, a rever os outros. Como pessoa, a minha chefe era o que eu suponho que os Americanos chamariam uma verdadeira filha da mãe; mas no que respeita ao trabalho, ela impunha-nos impiedosamente altos padrões, pelos quais, eu lhe estarei eternamente grato. Para além de ter de estar 100% exacto, o texto final também se deveria ler bem e com clareza; anos mais tarde, enquanto ensinava outros, eu repetia o seu seco comentário “Os pobres diabos nos comités têm pilhas deste material para digerir antes das suas reuniões – depende de nós que, pelo menos a sua leitura seja fácil; o vosso trabalho é sempre o de ajudar que a informação deslize suavemente para a mente dos leitores”.
Aqueles anos marcaram para sempre a minha abordagem: o meu dever é em primeiro lugar para com o leitor, em cujo benefício, eu devo transmitir o conteúdo do original tão claramente e assimilável quanto possível. Não pouco frequentemente, isto significa um certo grau de edição, de reestruturação ou de síntese, e isso coloca uma substancial exigência na capacidade de decisão do tradutor e na conquista da confiança do cliente para a essa capacidade de decisão. Eu sei que isto é uma área em que as opiniões divergem; e eu sei que existem muitos textos – os contratos legais e as especificações de patentes são dois exemplos óbvios – onde isto seria inapropriado e a estrita fidelidade ao texto original é essencial. Felizmente, na maior parte das vezes eu tenho conseguido evitar este tipo de trabalhos onde um original confuso, intrincado ou francamente monótono deve ser analisado tim tim por tim tim para se produzir uma confusa, intrincada ou francamente monótona tradução.
Eu sempre pensei que na nossa actividade haviam aqueles que, pela sua natureza, eram freelanceres natos e outros, cujos genes determinavam serem empregados por conta de outrem, e que frequentemente haveriam muitos a tentar fazer a quadratura do círculo. Depois de vários anos como funcionário público, picando o ponto todos os dias das 9h às 17h e esperando que alguém se aposentasse ou se afastasse prematuramente de modo que todos nós pudéssemos subir um degrau e esperar pela chegada da nossa idade de reforma, eu estava sentindo que isto era desesperadamente claustrofóbico. E achei que naquela altura já havia aprendido a minha arte suficientemente bem para poder aceitar clientes por mim próprio; então, após poupar 18 salários pé de meia, eu libertei-me dos salários mensais e tornei-me freelancer. E assim me lancei numa vida empolgante e muito variada durante 20 anos.
Falando com estudantes acerca do que é ser um freelancer, eu tentei assegurá-los que, uma vez que estejamos estabelecidos, a vida pode ser gratificante tanto a nível financeiro como em termos de satisfação com o trabalho. Desde o princípio, que eu decidi lidar maioritariamente com trabalhos para publicação e quase sempre directamente com os clientes, e a procurá-los em nichos de mercado onde uma procura altamente criteriosa estaria provavelmente com dificuldades em encontrar uma oferta satisfatória, estando disposta a pagar bem para obter o que queria; e a trabalhar num grupo restrito de campos que eu conheceria suficientemente bem para poder estabelecer um nível de conversação que me permitiria conquistar a sua confiança. (Os leitores que regularmente visitam o Foreign Language Forum irão certamente escutar ecos da Chris Durban, que apregoa o mesmo sermão).
Na mesma altura em que eu me tornei freelancer em 1960, eu fui chamado pelo secretário a participar nas actividades da Associação dos Tradutores do Reino Unido, que estava a trabalhar no sentido de criar alguma estrutura numa florescente mas ainda largamente desorganizada profissão. Durante as duas décadas seguintes eu servi duas vezes como o seu presidente, conheci muitas pessoas, fiz muitos amigos, e aprendi muito acerca do mundo da tradução no país e no estrangeiro (através do Conselho da Federação Internacional de Tradução). O meu esquema de trabalho, também estava a tornar-se cada vez mais internacional; em certos anos, passava cerca de seis meses a trabalhar fora de Inglaterra. Tudo começou quando o telefone tocou num Domingo de manhã, e um organizador da conferência disse “Estamos desesperados, e um amigo de um amigo pensa que você nos poderá ajudar: nós temos uma conferência de 2000 mil participantes durante 4 dias em Londres, e embora o trabalho de intérprete já esteja tratado, eles acabaram de decidir que também vão pretender uma tradução diária das minutas em Francês, Alemão, Italiano e Neerlandês. Poderia organizar a tradução e dactilografia em língua estrangeira? Quando? Quatro semanas apartir de amanhã.” Eu engoli em seco, mas tentei parecer confiante e prometi que lhe telefonaria no dia seguinte; depois passei doze horas seguidas ao telefone, fazendo chamadas por toda a Europa e dando graças pela minha volumosa agenda de contactos. Um novo e inesperado nicho de mercado tinha-se aberto, e durante a maior parte dos anos 70, a Edna e eu organizámos serviços linguísticos para conferências em locais tão distantes como Ankara e a Colónia de Williamsburg (ficámos a conhecer muitas salas de embarque de Aeroportos). Paralelamente a isto, uma nova clientela também estava a emergir nas organizações internacionais, com vários dos quais, eu passava um mês de cada vez em Bruxelas, Paris ou Estrasburgo, como tradutor ou revisor em projectos especiais ou para substituir pessoal em baixa médica.
A imagem estereotipada do tradutor freelance é o de uma alma solitária amarrada a um teclado de computador num quarto transformado em escritório, esperando que as agências lhe telefonem a oferecer trabalhos com prazos ridiculamente curtos, e desfrutando de pouca ou nenhuma vida social. Isto é o que geralmente acontece de facto; mas a minha experiência mostrou que isto pode ser diferente se possuirmos um temperamento apropriado (e isto é uma condição importante). As actuais tendências económicas forçaram muitas pessoas a ir contra as suas vocações, porque algumas pessoas com vocação para trabalhar dentro de estruturas organizadas se lançam no freelance porque as grandes firmas reduziram as suas equipas internas de tradução. As oportunidades interessantes aparecem através de bater às portas: e nem todas as pessoas gostam de bater às portas.
Uma das organizações internacionais em cujas portas eu bati (literalmente – enquanto passava pelos seus escritórios de Paris, entrei e pedi para falar com o responsável de tradução) foi a Organização de Pesquisa Espacial Europeia, que mais tarde viria a tornar-se a ESA, a Agência Espacial Europeia; em cada um dos 12 anos seguintes, eu passei 6 a 8 semanas trabalhando nos seus escritórios em Paris ou próximo de Haia. Depois de vinte anos de independência, eu havia jurado que jamais iria voltar para os quadros assalariados; mas todos têm o seu preço, e quando um revisor se aposentou e a ESA me ofereceu o lugar, eu iniciei uma jornada de 13 anos vivendo em Paris, que me levou até à aposentação e provou ser a mais feliz da minha vida profissional. Era um escritório que ainda recrutava novatos e os treinava segundo o método antigo e intensamente trabalhoso de “sentarmo-nos ao lado deles”, e como revisor-chefe na secção de Inglês (e nos últimos seis anos, Responsável pela Divisão de Tradução) eu pude recrutar e treinar uma série de jovens tradutores praticamente da mesma forma como eu havia aprendido o ofício 40 anos antes: um modo satisfatório de legar competências e atitudes a uma nova geração.
Agora, aos 70 anos, estou de volta ao freelancing, como elemento de um grupo relativamente pequeno que se dedica à história da arte Holandesa entre os séculos XV e XVII. Ver as minhas palavras impressas em cada novo volume publicado, e sabendo que estou a contribuir para difundir o Conhecimento, dá-me a mesma satisfação que eu senti quando produzi a minha primeira brochura na Philips.
Foi sempre um desafio, muitas vezes penoso, algumas vezes exasperante. Mas nunca foi monótono.
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